O Terceiro Setor, o setor das ONGs, é marcado por decisões difíceis e únicas. As lideranças das organizações enfrentam diariamente decisões em que precisam ponderar o impacto social, a sustentabilidade econômica e os interesses das diferentes partes interessadas, que vão desde os atendidos aos doadores.
Diferentemente da iniciativa privada, na qual o principal objetivo é o lucro e quase todos os indicadores são convertidos no retorno em reais, as ONGs priorizam o impacto social. Porém, engana-se quem acredita que priorizar o impacto seja tão simples. Primeiramente, a mensuração do impacto pode se tornar complexa, demandar muito tempo e ser cara, o que em muitos casos pode inviabilizar a sua execução. Segundo, porque os tipos de impacto que cada organização gera é muito diferente, dificultando a comparabilidade entre os impactos dentro ou entre projetos e programas.
Nesse sentido, a metodologia SROI é uma alternativa mais viável, principalmente, na tentativa de chegar em um denominador comum para comparar os impactos a partir de algumas premissas e simplificações. E, explicando um pouco mais, SROI (Social Return on Investment) é uma metodologia que busca atribuir valor financeiro aos impactos sociais e ambientais gerados por uma organização.
Por último, mesmo priorizando o impacto social, uma organização precisa captar doações e/ou gerar receita para financiar as suas atividades. Logo, as ONGs deveriam priorizar o impacto social sem perder de vista a sustentabilidade econômica e as demandas das partes interessadas, principalmente dos atendidos pela organização.
Na prática, essa ponderação de diferentes variáveis para se tomar uma decisão não é tão simples. Abaixo estão algumas decisões que as lideranças das ONGs costumam lidar.
Equilibrando a decisão: atender mais pessoas ou ser sustentável?
As ONGs enfrentam um cenário no contexto brasileiro de demanda latente, o que significa que a demanda por atendimento ou de proteção de uma área (para as ONGs da área ambiental, por exemplo) é maior do que a capacidade da organização. Diante disso, muitas lideranças vão priorizar aumentar o atendimento, pois o que as move para atuar no Terceiro Setor é o impacto social.
Porém, essa decisão pode trazer consequências para a organização. Uma das consequências é tornar a organização menos sustentável, pois decisões consecutivas priorizando o impacto nunca permitirá à organização formar uma reserva de emergência, por exemplo. Além disso, outra possível consequência é a diminuição na qualidade do serviço para aumentar o atendimento, impactando no impacto social, uma vez que o impacto não é apenas sobre quantidade de pessoas ou km2 de área preservada.
Certa vez ouvi de um diretor de uma ONG a frase “onde come uma [criança], comem duas”. Quais as consequências de diminuir a quantidade de alimentação abaixo do recomendado para cada criança ou encher o número de pessoas em uma sala com atividades da ONG?
Diante disso, é fundamental refletir sobre os impactos de cada escolha. Às vezes, o desejo de beneficiar um maior número de pessoas atendidas pode acabar mascarando a necessidade de criar condições adequadas de acolhimento.
Por isso, cada decisão deve ser ponderada com cuidado, com o olhar para a manutenção do compromisso com a qualidade no atendimento e a sustentabilidade da própria organização.
Qual parte interessada dar mais atenção?
Outra decisão recorrente a toda liderança de uma ONG é onde dedicar tempo para o objetivo principal de maximizar o impacto social, mantendo um modelo sustentável. As organizações, no geral, possuem uma grande limitação de recursos, tanto financeiros como de equipe, voluntários ou funcionários, tornando a decisão de onde alocar energia muito importante.
As diferentes partes interessadas de uma organização, as quais são os atendidos, os doadores, as empresas parceiras, os voluntários, os pais, a comunidade, a prefeitura, os funcionários, os conselheiros e muitos outros, demandam uma atenção a cada relacionamento. Desse modo, diante desse cenário, com uma multiplicidade de partes interessadas, as lideranças das ONGs precisam priorizar qual parte interessada receberá mais atenção e qual receberá menos atenção ou será de responsabilidade de alguma outra pessoa, ou departamento da organização.
Na minha atuação apoiando ONGs, vi diversos casos em que determinadas partes interessadas eram lembradas apenas quando a organização necessitava de algo. Porém, os piores casos que geraram grandes consequências foram quando os relacionamentos (principalmente com doadores, prefeitura e empresas) estavam concentrados em uma única pessoa, usualmente o presidente ou fundador, e quando essa pessoa deixou de fazer parte da ONG, a organização perdeu doações e parcerias relevantes.
Conclusão
O Terceiro Setor possui características próprias, a partir das quais as lideranças são demandadas a tomar decisões considerando o equilíbrio entre impacto social e sustentabilidade, a multiplicidade de partes interessadas, a limitação de recursos e muitas outras dimensões, como políticas, de valores e técnicas.
Esse artigo faz parte de uma série sobre Decisões no Terceiro Setor. No próximo artigo, compartilharei um modelo com etapas para a tomada de decisão para apoiar lideranças, fundadores, empreendedores e conselheiros que atuam no Terceiro Setor.
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