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Autocuidado: a história do termo no campo social e da saúde

25 de abril de 2024

Saiba como o conceito de autocuidado nasceu numa perspectiva individual na área da saúde e se transformou na área social como prática de cuidado coletivo.

Trabalho no Terceiro Setor desde 2006 e foi só na pandemia do Covid19, em 2020, que conheci o termo Autocuidado.


Na verdade, foi só nestes últimos anos que consegui rever minha relação com o trabalho, e passei a refletir que não parecia certo que eu usasse meus finais de semana e tempos livres apenas para descansar da exaustão física e mental inerente das 40 horas semanais trabalhadas dentro de Oscs, no trabalho com crianças e adolescentes em vulnerabilidade social, durante mais de 15 anos.


Havia mais vida para viver fora da causa que escolhi. Haviam outros sonhos e planos que não poderiam ser realizados se eu não reavaliasse a forma com que eu lidava com as minhas prioridades, sem aprender a dizer não. E tudo isso também era autocuidado.



A história do autocuidado



Ao contrário do que é prioritariamente veiculado, o autocuidado, ou a ideia de que a pessoa deveria dar atenção a si mesma, sua saúde, suas emoções e seus desejos, não saiu das revistas de modas e das propagandas para vender maquiagem. Esse é um termo que tem sua origem na área da assistência à saúde e à justiça social.


A psiquiatra e escritora indiana Pooja Lakshmin, autora do livro “Autocuidado de verdade” (2023) descreve a construção deste conceito através das décadas, a partir dos anos de 1950, explicando porque o sentido desta palavra tem mudado tanto com o passar dos anos. Pooja relata:


  • Na década de 1950, a psiquiatria usava o termo “autocuidado” para descrever o modo como os pacientes institucionalizados podiam afirmar sua independência, assumindo o controle de sua alimentação e praticando atividade física. 

  • Nos anos de 1960, profissionais de enfermagem e medicina falavam de sua própria necessidade de autocuidado em resposta ao estresse traumático secundário.

  • Nos anos de 1970, o movimento do autocuidado passou da comunidade da saúde aos círculos ativistas quando o partido dos Panteras Negras começou a promover o autocuidado como uma maneira das pessoas negras preservarem sua humanidade diante do racismo sistêmico nos Estados Unidos. Foram as mulheres negras que atualizaram o conceito no discurso público.


Audre Lorde, escritora americana, ativista dos direitos civis e homossexuais, desenvolveu essa ideia conceituando o autocuidado como um ato poderoso para reivindicar espaço em uma sociedade que exigia que minorias e grupos oprimidos se mantivessem pequenos ou invisíveis. 


“Cuidar de mim mesma não é autoindulgência, é autopreservação, e isso sim é um ato de político” (Audre Lorde, 1988)


  • Nos anos 1990, pesquisadores descobriram que o autocuidado na forma de atividade física, alimentação saudável e controle de estresse estava associado à melhora na saúde.

  • Nos anos 2010, o termo explodiu nas redes sociais e se inseriu na vida cotidiana das mulheres, mostrando o que Pooja chama de falso autocuidado. Quanto mais disfuncionais e fora do controle as estruturas sociais se mostravam, mais as redes sociais se enchiam de fotos de mulheres aparentemente levando uma vida maravilhosa em algum lugar paradisíaco, onde as soluções para saúde mental parecem simples e atrativas.


A autora afirma: “Chegou a hora de uma nova evolução da definição do termo, com um olhar mais profundo, voltado para dentro e o desenvolvimento de um método interno confiável e consciente, algo que vem de dentro de você”.



UM AUTOCUIDADO SEM CULPA


O conceito de autocuidado, como é vendido na mídia hoje, não está a serviço do bem-estar do indivíduo, mas sim, está em favor da venda de produtos e procedimentos que reforçam a comparação e a busca pela perfeição. Dessa forma, ele se torna difícil de se manter a longo prazo, gera frustração e culpa em quem não alcança as metas de beleza impostas.


“O autocuidado acaba sendo um fardo, só um item a mais na lista de coisas pelas quais as mulheres se sentem culpadas por não ter direito. Chamo isso de tirania do autocuidado”, diz Pooja, sugerindo que ampliemos nossa percepção de cuidado interno para aspectos que vão além da estética, observando dessa forma:


. Estabelecer limites com os outros: 

Equilibrando as necessidades das pessoas próximas a você e as suas próprias necessidades, aprendendo a dizer não e definir os seus limites sem culpa.


. Tratar a si mesma com compaixão:

Olhando com firmeza e sinceridade para o que você precisa e deseja e te dar a permissão de obter isso, se permitindo ser suficientemente boa.


. Aproximar-se de si mesma:

Fortalecendo sua versão mais autêntica e o que você é de verdade, incluindo seus principais valores, crenças e desejos.


. Utilizar seu poder para o bem:

Olhando para dentro de si e tomando decisões baseadas nisso. Envolve dizer o que funciona e o que não funciona para você, encarando e contrapondo a toxicidade que a nossa cultura impõe. Esse autocuidado é uma afirmação de poder.


PRÁTICAS DE AUTOCUIDADO NO TERCEIRO SETOR


Ao relacionar o autocuidado dentro do trabalho, e no Terceiro Setor, percebemos que o autocuidado individual é útil, mas ele se torna mais efetivo e com melhores resultados, se forem institucionalizados, tomando caráter de cuidado coletivo.


A Profª Mestre em Direito, Lisa Chamberlain, da Universidade de Witwatersrand, na África do Sul, explorou essa relação em seu artigo “Do autocuidado ao cuidado coletivo”, de 2020, onde elenca pontos a serem observados no que ela chamada de “cultura do ativismo”.


A autora afirma que, em trabalhos como a defesa dos direitos humanos, o autossacrifício é uma norma cultural, onde a defensora ou o defensor pode esperar, e até enaltecer, o colocar-se em risco. “Essas pessoas trabalham longas horas, raramente tiram folga e ignoram a necessidade de cuidar de sua saúde e bem-estar [...] elas acreditam que o trauma real é aquele vivenciado por aqueles que são beneficiários de seu trabalho e, portanto se perguntam: Quem somos nós para nos darmos ao luxo de fazer algo tão indulgente como ir ao cinema ou fazer uma aula de yoga”.


Citando também a ativista Audre Lorde, Lisa defende que o Autocuidado não é apenas um cuidado consigo mesmo, mas sim um ato político: “O autocuidado não é um complemento ao trabalho de um defensor de direitos humanos, a ser exercido apenas quando houver tempo ou recursos, mas é considerado parte fundamental de seu próprio trabalho”.


Complementando e ampliando o aspecto do cuidado individual, a autora expõe como isso pode ser feito de forma coletiva pelas organizações sociais:


  • Incentivo ao autocuidado: Esse é uma tema que precisa ser abordado e dialogado dentro das organizações, pensando que eles trás benefícios não só para a pessoa como para a organização como um todo. Uma pessoa atenta aos seus limites, que estabelece equilíbrio entre seu trabalho e a vida pessoal pode ser mais colaborativa, oferecer uma entrega mais qualitativa aos atendidos e potencializar a inovação.


“Uma abordagem centrada no autocuidado convida agentes de mudança a refletirem se é verdade que o que precisa ser feito não pode esperar que se alimentem, durmam, descansem e se divirtam um pouco” (Lisa Chamberlain, 2020)


  • Exemplo da liderança: Gestores que estão propondo ações de cuidado para com sua equipe, devem estar atentos ao exemplo. “Se a diretora ou o diretor de uma ONG prega o autocuidado, mas trabalha até a exaustão, a culpa associada ao autocuidado permanecerá, e a cultura institucional prejudicial sobre a ética do trabalho não mudará”.


  • Adesão do âmbito diretivo: O envolvimento dos membros da diretoria nessas ações são fundamentais, já que muitas vezes é necessário que se avalie a estrutura organizacional, para se realizar as mudanças necessárias. Questões como carga horária, análise orçamentária e reavaliação do modelo de trabalho são imprescindíveis para que as práticas de cuidado coletivo sejam efetivas e que deixem de ser apenas retórica para se transformar em ação concreta.


  • Práticas adequadas a cada organização e equipe: Quando falamos em autocuidado e cuidado coletivo não há um único caminho ou uma receita de bolo. Portanto, a escuta atenta e ativa dos membros de cada organização ou equipe, contribuirá com a construção de políticas de cuidado influenciadas, inclusive, pelo porte, orçamento e cultura de cada ambiente.


  • Pequenos cuidados: A atenção a essa temática pode se iniciar com pequenas ações como observar a quantidade real de tempo de trabalho de cada pessoa, percebendo se é comum que elas sejam excedidas nas rotinas diárias. Cuidar para que o intervalo para o almoço seja realizado de forma tranquila e que seja evitado o envio de mensagens em grupos de whatsapp ou email fora do horário de trabalho.


  • Flexibilidade na criação dos filhos: Compreender e proporcionar a flexibilidade de horários principalmente para profissionais que têm a responsabilidade primária na criação dos filhos, inclusive garantindo o mesmo direito aos homens nessa função.


  • Compreensão da causa: Reconhecer a complexidade e o caráter árduo deste trabalho, de forma que ele não seja agravado pela exploração do trabalhador, aproveitando-se de sua motivação.


Um exemplo inovador de organizações que entenderam e aderiram a este conceito de cuidado coletivo, diz Lisa, é o “Dia do Travesseiro”. Uma ocasião usada para contemplar aquele dia em que a pessoa não consegue se levantar da cama e ir trabalhar devido à exaustão intensa, a uma crise de ansiedade, depressão ou outras razões possíveis. A autora sugere que as organizações podem permitir que toda a equipe tenha um número definido de dias do travesseiro por ano.


SE ESTAMOS FORTALECIDOS INDIVIDUALMENTE NOSSA CAUSA TAMBÉM ESTÁ


Falar em autocuidado, primeiramente, é falar da valorização da vida. Da sua vida antes da vida do outro.


Aprender e reconhecer que fora dos padrões estéticos estamos falando de autoconhecimento, autopercepção e definição de limites, nos direciona para um cuidado que vai além de uma lista de tarefas e que se projeta para uma ação a longo prazo. Dessa forma, afirmamos que a solução para outra pessoa, não necessariamente é a sua.


Perceba, neste momento como esse assunto chega para você:


  • Individualmente, como você tem percebido suas ações de autocuidado? 


  • Tem sido possível estabelecer limites no trabalho, nos relacionamentos e nos seus hábitos? 


  • E de maneira institucional, você acredita que na organização em que você trabalha há espaço para se falar sobre isso?


Para se aprofundar no tema de estratégias em saúde mental para períodos estressantes, em nível pessoal e organizacional, te indico o texto no link abaixo:

clique aqui

De uma forma mais abrangente, quando investimos em atitudes que nos fortalecem e nos deixam mais saudáveis, estamos influenciando uma mudança sistêmica que fortalece também o nosso setor e as pessoas que fazem parte dele.


No entanto, este também é um chamado para uma política de cuidado coletivo, que perpassa as esferas organizacionais e as políticas públicas, principalmente abraçadas pelas pessoas que mais influenciam as dinâmicas sociais, ou seja, suas lideranças.



Referências:

  1. CHAMBERLAIN, Lisa. Do autocuidado ao cuidado coletivo. Sur - Revista Internacional de Direitos Humanos, v. 17 n.  30 . 223 - 234. São Paulo, Agosto de 2020. Disponível em: https://sur.conectas.org/wp-content/uploads/2020/08/sur-30-portugues-lisa-chamberlain.pdf

  2. LAKSHMIN, Pooja. Autocuidado de verdade: Um programa transformador para redefinir o bem-estar (sem cristais, purificações ou banhos de espuma). Tradução de Lígia Azevedo. Editora Fontanar, 2023.

  3. LORDE, Audre. A Burst of Light. Firebrand Books, 1984.



Sara Dias é pesquisadora e facilitadora do movimento e do bem-estar. 

Profª Mestra em Artes da Cena pela UNICAMP,  pós-graduanda em Gestão de Pessoas e Psicologia Organizacional e instrutora de Yoga. Possui experiência como educadora social desde 2006 e desenvolve projetos relacionados à Saúde Mental e Bem-Estar no Terceiro Setor. 


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Disponível em:<[ https://www.viannasapiens.com.br/revista/article/view/97/83 ]>. Acesso em: 30 jan. 2025. GALLEGO, Angélica Helena Santini Montes; GALINDO, Daniel dos Santos. Criança Esperança: exemplo do marketing de causas sociais, articulado pelas relações públicas. In: V CONGRESSO NACIONAL DE HISTÓRIA DA MÍDIA, 2007, São Paulo. Anais... São Paulo: Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação, 2007. Disponível em: <[ http://www.intercom.org.br/papers/outros/hmidia2007/resumos/R0193-1.pdf] >. Acesso em: 30 jan. 2025. ACEVEDO, Claudia Rosa; OLIVEIRA, Leonardo Domingues de; SILVA, Rafael Mendes; CATÃO, Bruno Alves. Percepção de consumidores sobre ações de marketing de causa de empresas privadas . South American Development Society Journal , São Paulo, v. 6, n. 17, p. 40-58, 2020. Disponível em: https://www.sadsj.org/index.php/revista/article/view/300 . Acesso em: 3 fev. 2025.
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Este é o último artigo da série “Decisões no Terceiro Setor”. Após discutir sobre as decisões no Terceiro Setor e apresentar um modelo para estruturar as decisões, chegou a hora de apresentar diferentes modelos para a etapa de decisão.
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No artigo anterior , discuti sobre algumas das características que diferenciam o Terceiro Setor, além de decisões difíceis que toda liderança de uma ONG enfrenta em sua rotina. E, seguindo a sequência de conteúdos, aaixo compartilharei sobre as etapas de uma decisão com base na literatura do tema. Na liderança de uma organização e na correria do dia a dia, um dos maiores erros que podemos cometer é não estruturar as informações para tomar uma decisão difícil ou importante. O cansaço e/ou a falta de tempo acabam nos levando para um caminho de escolher uma opção pela intuição ou a que soa mais razoável, sem de fato entender nosso verdadeiro objetivo ou explorar e esgotar todas as alternativas possíveis. Uma coisa que aprendi liderando equipes, áreas e uma organização é que nem toda decisão precisa ser tomada no momento em que uma decisão é demandada de você ou de um grupo do qual você faz parte. Com exceção de emergências, quando cada segundo é valioso, podemos pedir mais tempo para refletir melhor sobre as opções levantadas, conversar com outras pessoas e pensar em novas opções. As etapas da tomada e decisão John Hammond, Ralph Keeney e Howard Raiffa apresentam em seu livro “Decisões Inteligentes” um modelo formado por cinco etapas: Problema Qual problema estamos tentando resolver? Muitas vezes partimos para a solução sem delimitar o problema que buscamos solucionar. Objetivo Qual o objetivo principal ao se tomar essa decisão? Alternativas Criação de alternativas viáveis para avaliação posterior Consequências Quais as consequências de cada alternativa? Ao escolher uma alternativa, o que ela gera além de tentar resolver o problema? Concessões (tradeoffs) Dificilmente uma alternativa atenderá todos os objetivos e resolverá completamente um problema difícil e complexo. Ao escolher uma alternativa, do que estou abrindo mão? Decisão Após avaliar e comparar as alternativas, chegou a hora de decidir. Estruturar a decisão seguindo as etapas com certeza ajudará a refletir para uma decisão mais consciente e melhor. Porém, isso não significa um resultado melhor. Aprendemos na prática em nossa vivência nas organizações que não é possível controlar todos os resultados após a tomada de uma decisão. Ou seja, diversos fatores externos influenciarão no resultado final (fenômeno este muito presente na avaliação de impacto, na qual se discute como isolar os fatores externos), seja porque a equipe não executou como o planejado ou porque alguma nova informação (que surgiu após a decisão) evidenciou que a alternativa escolhida não era a melhor. “Uma boa decisão pode gerar um resultado negativo, assim como uma má decisão pode gerar um resultado considerado negativo” Afinal de contas, o que é uma boa decisão? Para Spetzler, Winter e Meyer, uma boa decisão deve atender a seis critérios: Abordagem apropriada para o problema - responde à pergunta ‘o que desejamos resolver?’. Alternativas criativas - o famoso pensar “fora da caixa”. Às vezes, estamos presos nas opções iniciais disponíveis, quando há uma alternativa melhor que ainda não emergiu. Informações relevantes e confiáveis - as informações coletadas apoiam na tomada de decisão e os dados e indicadores utilizados são confiáveis. Raciocínio lógico - é possível demonstrar a lógica da decisão na escolha da alternativa. Valores e concessões delimitados - os valores que embasam a decisão são explícitos e há consciência do que se está abrindo mão ao escolher uma alternativa em detrimento da(s) outra(s). Compromisso com a ação - a decisão direciona para um caminho. Sem ação, não há resultado na maioria das vezes (como quase tudo tem exceção, em algumas decisões há a alternativa de não fazer nada). Portanto, sabendo que não conseguimos controlar 100% dos resultados, nosso foco deve ser em estruturar melhor a decisão para, a partir das informações disponíveis, escolhermos a melhor alternativa. Quando for avaliar uma decisão meses ou anos depois, lembre-se, foi a melhor decisão com as informações disponíveis naquele momento. Não adianta avaliar uma decisão como ruim considerando informações coletadas posteriormente. No próximo artigo e último da série “Decisões no Terceiro Setor” apresentarei alguns modelos de decisão, explorando os contextos em que cada modelo faz mais sentido. Enquanto isso faça a pré-inscrição da sua organização em nosso programas, clicando no link a seguir: https://www.phomenta.com.br/programas-ongs-pre-inscricao Fontes: Decision Quality: Value Creation from Better Business Decisions Smart Choices
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