Por sua relevância para o planejamento e avaliação dos projetos sociais nas organizações do Terceiro Setor, vou aqui retomar o “Guia da Teoria da Mudança em 10 passos”, da New Philanthropy Capital (NPC), publicado no final de 2019 e que representa uma síntese do aprendizado de 10 anos da instituição na aplicação da metodologia. Cabe lembrar que a NPC é uma instituição de apoio às organizações de filantropia, referência no Reino Unido. No Brasil, cada vez mais vem se utilizando a teoria da mudança para apoiar projetos e iniciativas de impacto social.
Considero que esse guia da NPC sobre a teoria da mudança pode trazer dicas importantes para organizações no Brasil que estão em fase de planejar ou (re)planejar suas iniciativas socioambientais.
Leia também:
Por dentro da Teoria da Mudança
O que é a teoria da mudança? Qual a diferença em relação ao marco lógico?
A NPC define a teoria da mudança como sendo “um modo de as organizações filantrópicas refletirem e descreverem
o que elas pretendem alcançar e
como esperam alcançar”. Ou seja,
para a NPC a teoria da mudança é basicamente uma ferramenta de planejamento de projetos e iniciativas sociais.
Mas não é também essa a função do Marco Lógico, tradicional instrumento de planejamento e avaliação de projetos sociais adotado amplamente por organismos internacionais (como USAID, Banco Mundial e BID), governos e terceiro setor?
Recordando,
o marco lógico nasceu (1970) com a função de planejamento, e acabou sendo utilizado / aprimorado também como instrumento de avaliação.
Em 2014, preparei um
Manual para apoiar as monitorias de planejamento e avaliação de projetos sociais, para as organizações que participavam do programa de Parceria com Organizações Sociais (POS) da Fundação Dom Cabral (FDC). O Manual estava baseado no método do
Marco Lógico, utilizado tanto para planejar o projeto [de forma preliminar para embasar a elaboração da proposta do projeto; e de forma detalhada depois da aprovação, para orientar o acompanhamento dele] como para o seu monitoramento e avaliação.
Fonte:
James Noble, Theory of change in ten steps. NPC, October 2019.
M.Cecília Prates, Planejamento e Avaliação de projetos sociais em organizações do terceiro setor. FDC/POS, 2014.
Teoria da mudança (NPC) – quais são os 10 passos?
Traduzi e fiz uma síntese de quais são essas dicas para cada um dos passos propostos no Guia (a seguir).
Como afirma James Noble (autor do Guia), a teoria da mudança pode ser aplicada em qualquer projeto ou organização voltado para fazer o bem. Ou seja, não apenas em organizações filantrópicas, como também em empresas com impacto. E, possivelmente, o mesmo vale para o caso do marco lógico.
Vamos, então, aos 10 passos propostos para a Teoria da Mudança, e quais são as questões relevantes a serem levantadas em cada uma dessas etapas.
Passo 1: Elaborar o Diagnóstico: Análise da situação
1a: Definir o “problema”
De forma sucinta, qual é o problema que o projeto pretende abordar?
1b: Entender o “problema”
- Quem está sendo afetado? Quem são as pessoas particularmente vulneráveis ao problema?
- Quais são as consequências do problema?
- Quais são as causas do problema?
- Quais são as barreiras a serem enfrentadas para a mudança?
- Quais são as oportunidades que podem ajudar a superar essas barreiras?
- Quem mais (outras instituições) está trabalhando para resolver esse problema? Quais podem ser os outros parceiros relevantes?
- O que
não está acontecendo? Quais são as lacunas?
Ao responder a essas perguntas, procurem levantar as informações sobre o problema, identificar pesquisas anteriores já realizadas e ouvir as pessoas que estão sendo afetadas.
1c: Refletir no que a organização pode oferecer
- Que tipo de recursos temos para resolver o problema em questão?
- [a. Conhecimento; b. Experiência; c. Conexões e redes; d. Financiamentos]
- Dados esses recursos, o que vamos fazer? Onde podemos fazer a maior diferença? Qual deve ser o nosso papel?
- Com quem precisamos trabalhar?
- Que opções, estratégias ou abordagens iremos descartar? Por quê?
Ao fim desta etapa, vocês devem ser capazes de descrever a lógica de atuação do trabalho a ser desenvolvido.
Passo 2 – Definir o público-alvo
Quem são as pessoas que a organização pretende ajudar ou influenciar?
Os públicos-alvo (ou grupos-alvo) são as pessoas ou instituições sobre as quais o projeto pretende atuar diretamente. Por ex., se vocês pretendem treinar profissionais de saúde para melhor apoiar os pacientes, então os profissionais de saúde serão o seu grupo-alvo, não os pacientes. Pode ser 1 ou vários grupos-alvo.
Descrever as características desses públicos-alvo, buscando identificar os fatores mais relacionados ao “problema”:
- Fatores objetivos: Idade, localização, educação, histórias pessoais, etc.
- Fatores subjetivos: Conhecimento, atitudes e comportamentos, etc.
Passo 3: Definir o Impacto
Qual a mudança sustentada ou de longo prazo que vocês querem ver acontecer?
Dicas para definir o impacto:
- Pensem no impacto que vocês pretendem alcançar para
cada grupo-alvo, um de cada vez.
- Lembrem-se que o impacto deve ser sustentável no longo prazo. Deve ser algo potencialmente a ser alcançado depois que o projeto de vocês tiver ocorrido. Perguntem a si próprios como vocês querem que
a situação do público-participante esteja melhor depois de um ano, ou mesmo de cinco anos, por causa do trabalho que vocês desenvolveram.
- O impacto é algo importante e significativo, como: redução da criminalidade, aumento do emprego, melhora no bem-estar, uma mudança de política, etc.
- Impacto é algo que o seu público-participante vai conseguir por si mesmo, em suas próprias vidas. Os serviços e as campanhas não tornam as pessoas saudáveis, educadas ou bem-informadas; as pessoas fazem isso por si mesmas. As organizações ajudam as pessoas a fazerem essas mudanças em suas vidas, através dos resultados dos seus projetos.
- Impacto é algo que vocês vão contribuir para, ao lado de outros fatores.
- Tentem explicitar de modo sucinto os objetivos de impacto; dizer em uma ou duas frases é o ideal.
Passo 4: Definir os Resultados
Que alterações de curto prazo para o seu grupo-alvo podem contribuir para o impacto?
Os resultados acontecem antes do impacto. Em um contexto de oferta de serviços, os resultados representam as mudanças nas capacidades ou nos ativos com os quais vocês pretendem equipar o público-participante para que eles alcancem o impacto (definido no Passo 3).
O tempo pode ser uma lente útil aqui. Se o impacto é o que você quer alcançar ao longo dos anos, os resultados geralmente tendem a estar referenciados a semanas ou meses.
Dicas para definição dos Resultados:
- Com o projeto, que ativos as pessoas ganharão ou reterão? Como as pessoas serão diferentes dentro de alguns dias ou semanas, e como isso pode ajudá-las a alcançar as mudanças sustentadas a longo prazo?
- [a. Conhecimento e/ou habilidades; b. Atitudes; c. Comportamentos]
- O que vocês gostariam que os seus públicos-participantes soubessem? O que vocês gostariam que eles pensassem e/ou fizessem diferente?
Passo 5: Definir as Atividades
O que a organização (ou o projeto) vai fazer para gerar os resultados (do Passo 4) ?
Diz respeito aos serviços a serem oferecidos e/ou as campanhas a serem realizadas.
- Quais são as principais características das atividades?
- Com que frequência e por quanto tempo vocês vão realizar as atividades com os grupos ou indivíduos?
- Quem vai conduzir as atividades?
- Como vocês vão fazer a divulgação das atividades para as pessoas (do público-alvo)?
Passo 6: Explicitar os Mecanismos de mudança
Como as atividades causarão os resultados desejados?
Em relação aos ‘mecanismos’, vocês devem descrever sobre como querem
que as atividades sejam experimentadas pelos públicos-participantes, de modo a gerarem os resultados desejados.
- O que vocês querem que as pessoas do público-participante pensem, sintam ou façam enquanto eles estivem experimentando o seu serviço ou campanha? Por exemplo: que se sintam seguros, autoconfiantes, se sintam ouvidos, se sintam apoiados, que comecem a pensar sobre as coisas de forma diferente, se sintam motivados. Isto são os mecanismos.
- Como vocês poderão saber se as coisas estão funcionando como planejado, enquanto as atividades estiverem acontecendo?
- Quando se tratar de campanhas, pense nos mecanismos como sendo as “mensagens” que vocês desejam transmitir para os públicos-participantes.
Já a qualidade do serviço diz respeito
à maneira (ou qualidade) como planejam oferecer as atividades, para que os participantes as experimentem do modo que se deseja. Isso nos permitirá maximizar a chance dos mecanismos de mudança serem experimentados e os resultados alcançados.
- O que tornará as atividades particularmente eficazes?
- O que é único, ou especial, sobre os nossos serviços ou campanhas?
- Quais são as qualidades que a equipe e os voluntários precisam ter e demonstrar?
Passo 7: Explicitar o Sequenciamento
Qual é a ordem para que os resultados e o impacto ocorram?
Dicas para pensar em sequenciamento:
- Concentrem-se em resultados e mecanismos, e raciocinem para trás a partir do impacto. Perguntem a si se haverá uma sequência lógica para que as coisas ocorram….
- Pensem de forma ampla – a sequência deve ter apenas 2 ou 3 etapas.
- Não se preocupem se não identificarem nenhuma sequência óbvia – há muitas situações em que o sequenciamento não faz sentido ou não é necessário.
Passo 8: Elaborar o Diagrama da Teoria da Mudança
Construir um diagrama, ou uma tabela do tipo marco lógico, para explicitar a relação esperada entre atividades, mecanismos, resultados e impacto.
Vantagens:
- A elaboração de um diagrama
em uma única página, ou de uma tabela, permite aprofundar a reflexão sobre a Teoria da Mudança.
- É uma ferramenta útil de comunicação do projeto
Dica: Ter cuidado sobre o que incluir no diagrama e o que deixar de fora.
Normalmente, menos é mais. As coisas mais importantes a incluir são
impacto, resultados, mecanismos e atividades. As informações sobre contexto e pressupostos podem vir em anexo.
Passo 9: Definir demais públicos relevantes (parceiros) e “fatores facilitadores”
Como o ambiente externo poderá afetar os objetivos e planos?
Aspectos a serem considerados:
1.
O que vocês precisam que outras partes interessadas ou instituições façam, ou não façam, para apoiar a teoria da mudança que está sendo proposta?
- Quais outras pessoas ou organizações podem afetar a entrega de sua teoria da mudança?
- O que vocês precisam que eles façam? Como eles poderiam ajudar?
- Como vocês podem incentivá-los a fazer isso?
2.
Que fatores fora do seu controle podem afetar a teoria da mudança que está sendo proposta?
- Que fatores fora do seu controle imediato podem ajudar? (como as políticas governamentais, o ambiente econômico ou social mais amplo, a opinião pública, …)
- Que fatores fora do controle imediato podem prejudicar?
3. Que outras condições do contexto poderão afetar a teoria da mudança proposta?
- O que apoiará ou impedirá que os públicos-participantes se envolvam com o projeto e alcancem as mudanças?
- O que mais pode estar acontecendo em suas vidas de modo a afetar as mudanças?
Passo 10: Estabelecer os Pressupostos
Quais são os pontos frágeis e incertos da teoria da mudança proposta? Importante se colocar no lugar dos críticos mais ferozes ao projeto: o que eles iriam questionar ou duvidar?
10a: Pressupostos para as entregas
- Com quais aspectos da entrega do projeto vocês estão preocupados?
- Vocês conseguem realmente alcançar as pessoas que vocês precisam alcançar?
- Vocês podem realmente entregar o que vocês dizem que podem? Quais são as principais preocupações?
- As equipes da organização e os voluntários têm as habilidades certas? Será que eles têm os recursos e apoio de que necessitam?
- Vocês têm os recursos de que precisam? Se não, como obtê-los?
10b: Pressupostos para o impacto
- Que aspectos fundamentais da teoria da mudança são questionáveis?
- Seu modelo vai realmente conseguir fazer a diferença? Parece de fato plausível que vocês vão contribuir para os resultados desejados através das atividades, produtos e os engajamentos descritos? Quais são os seus maiores “saltos de fé”?
- Com que tipos de pessoas a sua teoria da mudança vai trabalhar? Com quais tipos não vai trabalhar?
- O que a evidência externa diz sobre as conexões em sua teoria da mudança? Até que ponto as evidências suportam o que vocês estão dizendo? Onde estão as lacunas nas evidências?
10c: Efeitos não intencionais
- O que poderia dar errado? Quais são os riscos?
- O que poderia ocorrer de inesperado?
- O projeto poderia tirar as pessoas de outras iniciativas mais importantes?
10d: Pressupostos para o processo
- Quão confiantes vocês estão de que a equipe que elaborou a teoria da mudança realmente contou com os recursos e conhecimentos necessários para desenvolver uma boa teoria da mudança?
- As opiniões, experiências e perspectivas dos beneficiários foram levadas em consideração de forma legítima e representativa?
Fonte: Tradução e síntese a partir de
James Noble, Theory of change in ten steps. NPC, October 2019